Sempre que vou ao Banco, na Augusta, passo por um morador de rua, o mais folgado do mundo, que embora muito sujo, instalou uma cama com rodas e colchão, cobertas e um enorme guarda-sol, desses de piscina, na cabeceira, cobrindo-a quase toda como um dossel. Ele ainda fez do parapeito alto da loja desativada na frente da qual está instalado, a sua mesa de cabeceira coberta com uma parafernália indefinível. Ele possui também uma poltrona velha giratória de escritório, confortável, ao lado da cama e até um servidor plástico de água mineral com torneira e o garrafão vazio emborcado em cima... Ele imita todos os confortos de um quarto imaginário, faltando apenas, a meu ver, um ventilador imóvel e um televisor sempre negro. Ele ocupa um espaço da calçada cada vez maior, realmente é o rei dos folgados, e me diverte passar por ele reparando nos detalhes, tanto mais que percebo que os outros passantes parecem não enxergá-lo, como se ele fosse completamente invisível para o nosso mundo. Hoje, entretanto, passando por ele, me ocorreu que seu sonho é tão real quanto o meu, sonhadores do absurdo que somos. E que meu caminho real, às custas de me expor tanto igualmente, acabará por tornar-me tão invisível quanto ele... (Guilherme de Faria)
quinta-feira, 21 de janeiro de 2016
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