sexta-feira, 27 de janeiro de 2017
"Tendo deixado a casa materna como jovem artista tentando ser independente, pobre como Jó, eu saía do meu pequeno ateliê, um porão infecto, que eu chamava meu "Bateau Lavoir", e me dirigia na hora do jantar para a rua São Luiz, onde era convidado a sentar-me num certo restaurante na mesa de calçada de uns jornalistas do Estadão, que me pagavam o jantar em troca do meu papo e dos desenhos que eu lhes presenteava e que pareciam admirar muito. Logo me aconselhariam a vender ilustrações para o famoso Suplemento Literário (de saudosa memória) coisa que fiz por vezes durante uns poucos anos. Uma vez, estava também na mesa um jovem bonito, nitidamente de outra classe social, que não abria a boca, enquanto nós falávamos sem parar sobre Arte, Literatura e Cinema. Então eu, incomodado, perguntei-lhe: "E você, não gosta de Arte?" O rapaz, carrancudo, respondeu: "De arte eu gosto, eu não gosto é de artista". Fiquei sem graça. Foi a primeira vez que me senti agredido, embora tenha percebido claramente porquê. Eu era jovem como ele, era também bonito mas tinha outras coisas para vender... " (das Memórias de Guilherme de Faria)
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário