Nos anos 60, meus desenhos já começando a ser bem recebidos pelos colecionadores de São Paulo, fui contatado pelo grande empresário e colecionador Max Feffer (agora há décadas falecido) que adquiriu um desenho meu que representava um monge franciscano de costas. Era um desenho dos melhores e ainda me lembro dele. Sinceramente, a tonsura da calva e a cordinha que amarrava a batina do monge eram um prodígio de gestualidade zen como duas pinceladas de caligrafia japonesa que davam movimento à figura estática. Creio que é um desenho que me orgulharia ainda hoje e eu pude vê-lo numa parede da mansão do Max no Jardim Europa, naquela oportunidade. E eu estava em magnífica companhia naquelas paredes que eram dominadas por grandes telas do genial Di Cavalcanti, em quantidade, em todas as salas. Admirado, eu perguntei como ele tinha tantas obras do melhor período do Mestre e assim, de grandes formatos. Max respondeu: "Eu podia ter adquirido muitas mais... " E eu, curioso por sabê-lo um homem rico, e que dinheiro não seria obstáculo, perguntei : "Como?" E ele respondeu: "O Di vinha sempre me oferecer seu quadros no meu escritório, e às vezes eu não comprava! "Por quê?" - admirado, eu insisti. E o Max respondeu: "Porque ele não sabia se comportar..."
Fiquei mudo diante de tal resposta, e daí por diante receoso de abrir a boca. Eu também precisava tanto que os ricos me comprassem, e percebi como é difícil entender o protocolo dos reis. Quis logo me retirar e quase me dirigi para a porta de serviço. Me despedi, saí, voltei para casa a pé, muito distante, e por uma razão ou por outra nunca mais vi o Max. Talvez devesse também ter me comportado mal... (das Memórias de Guilherme de Faria)
sexta-feira, 27 de janeiro de 2017
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