
PAGÚ, UMA GAFE
(Crônica de Guilherme de Faria)
Num período de minha vida, ao redor dos quarenta anos, quando entre casamentos eu costumava almoçar no apartamento de minha mãe, com prazer pois conversávamos fartamente sobre Literatura (ela era muito letrada em geral, mas principalmemte em literatura acadêmica francesa, que ela lia sempre no original, claro), enquanto esperava o almoço, tocou a campainha e eu atendendo, fiz entrar uma senhora de meia idade, amiga de minha mãe, de aspecto imponente, aristocrático. Enquanto esperávamos na sala, minha mãe na cozinha acabava de preparar o almoço, depois de interromper o seu trabalho para receber a amiga, e nos apresentar com as palavras: "Olhe, Guilherme, ela é sobrinha da nossa ilustre Tarsila do Amaral!" Eu, então, pensando ser a propósito, para puxar conversa comecei a falar sobre a maravilhosa biografia da Pagu, do Augusto de Campos, que eu estava lendo, entusiasmado com aquela figura hoje lendária do modernismo, uma pioneira da emancipação feminina, linda moça de origem operária que se torna mulher do Oswald de Andrade depois que este deixou a Tarsila, e se torna jornalista, comunista, uma das Musas do Modernismo, vai presa, se exila e se torna amiga do último Imperador da China com quem passeava de bicicleta dentro dos muros da Cidade Proibida, e termina a vida escrevendo crônicas estupendas sobre o Movimento Surrealista e o teatro de vanguarda mundial, em jornais de São Paulo...
De repente, logo de saída sou interrompido pela tal senhora, subitamente transtornada, tremendo, colérica, com o rosto vermelho, com o dedo em riste, quase gritando com fúria sagrada:
- "Aquele homem horrível, Oswald, grosseiro, que trocou uma RAÍNHA (!!!) como a Tarsila, por aquela mulherzinha vulgar! Tarsila era um rainha!!" (ela repetia com ênfase, prestes a ter uma apoplexia).
Eu devo ter empalidecido, envergonhadíssimo com a minha gafe e não falei mais nada, tão constrangido que, por minha vez, desconcertei a furibunda senhora paladina de sua tia, a grande Tarsila. Não havia mais ambiente e a senhora tratou de desculpar-se mas somente por não poder ficar para o almoço, o que a minha mãe, vinda da cozinha, muito lamentou, conduzindo-a até a porta, pedindo desculpas...
Meditando sobre este episódio algum tempo depois, dei-me conta da imensidão dos preconceitos sociais da época de nossas mães e avós, e mais admirei a Pagu e a grande Tarsila, por suas atitudes pioneiras, revolucionárias, as duas afrontando o ambiente elitista e tacanho que dominava a nossa Arte naquelas primeiras décadas do século, uma pelo lado de dentro da aristocracia e a outra pelo de fora. Duas heroínas...
14/12/2011
Nenhum comentário:
Postar um comentário