terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Uma Temporada no Inferno (crônica de Guilherme de Faria)

Quando eu era um garoto de uns doze anos, tendo me tornado um pequeno rato de biblioteca e estando um tanto franzino, minha mãe decidiu me enviar para uma colônia de férias para me "enrijecer". Escolheu o "Paiol Grande" uma instituição tipicamente americana, embora fosse de padres católicos de origem canadense. O diretor do Paiol era o Father Leising um padre dos Oblatos de Maria Imaculada ( estranho... nunca me ocorreu descobrir o que é "oblato"). Também não me lembro de jamais ter visto o father, mas sua presença era sentida, não sei porquê. Mas o que quero contar é como tive um encontro desastrado com a cultura americana, que quase conseguiu apagar o encantamento que eu tinha com o cinema de Hollywood e suas estórias, musicais e estrelas maravilhosas. Nos primeiros dias fui escalado para uma excursão a cavalo que durou dois dias de sofrimento sacolejando por campos e montanhas no lombo daquele animal com que eu nunca antes tivera contato. Passei fome, frio, e sobretudo um imenso cansaço e dores no corpo todo, sobretudo nas pernas. Quando afinal chegamos de volta ao acampamento, todo de chalés (o meu era no alto do morro), apeando eu mal podia me manter de pé, caminhava cambaleando e ao começar a subir a ladeira perigosamente próxima de um campo de futebol americano onde estavam jogando os garotos americanos que nunca se misturavam conosco (os brasileiros) e mal os avistávamos, resvalei na borda escarpada do campo e caí dentro dele. Imediatamente me tornei alvo dos Yankes, que vieram na corrida e se atiraram em cima de mim aos montes, embolados, sempre gritando naquela algaravia enrolada, incompreensível. Eu tentava levantar e correr graças à adrenalina que explodiu, mesmo com aquelas dores que mal me permitiam andar. O garotos, extremamente fortes, de pulsos grossos como os tornozelos, louros, ruivos e sardentos, verdadeiramente selvagens, se divertiam em me perseguir e derrubar-me de borco agarrando-me pelas pernas e amontoando-se sobre mim. Eu tentava galgar o barranco mas ele me arrastavam para baixo, sempre gritando coisas das quais eu só distinguia: "Kill him! Kill him!"
Só me soltaram quando eu, desesperado, lutando que estava pela minha vida, virei-me para trás e gritei entre dentes, guturalmente, com um esgar de fúria e desespero:" LARRRRGGAA!" Me lembro do olhar de espanto do último que ainda me agarrava, e que me largou e ficou me olhando de mãos na cintura.
Eu afinal saí do território mortal deles, sem mais olhar para trás. E subi mancando e cambaleando para o meu chalé para afinal cair na cama, absolutamente exausto e moído.
Essa experiência me deu uma amostra muito clara de uma faceta da cultura americana que me faria preferir continuar sonhando com os filmes de Hollywood e nunca almejar conhecer aquele país ao vivo, mesmo acaso fosse convidado um dia.

Mas a verdade é que minha mãe tinha razão: ao final daquelas sofridas férias de um mês, na minha temporada nada rimbaudiana no inferno, eu tinha enrijecido um pouco... E voltei botando banca nos jogos de rua do meu quarteirão.

São Paulo, 13/12/2011

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