quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

A Negra da Tarsila (crônica de Guilherme de Faria)


A Negra da Tarsila
(crônica de Guilherme de Faria)

No ano de 1965 fui visitar uma das minhas tias que estava bastante velha, numa cadeira de rodas e não saia mais para nada. Entro em sua casa no elegante bairro do Pacaembú, povoada de objetos de arte, uma casa estranha em sua arquitetura da década de 20, que me fascinava desde a infância.
Lembro-me sobretudo dos quadros espalhados pelas paredes da casa toda. Na grande sala de jantar, havia várias naturezas mortas, escuras, com grandes tachos de cobre pintados com um realismo notável, de autoria de Pedro Alexandrino, que destoavam da arquitetura da casa. O que me fascinava mesmo, na infância, era um grande quadro da Tarsila, este sim no estilo Art-Déco com faixas de cor paralelas no fundo, representando uma negra com o beiço inferior deslocado, o seio pendente por cima do braço direito dobrado sobre o ventre, sentada no chão com as pernas meio cruzadas. Soube muitos anos mais tarde tratar-se da “Negra”, da fase antropofágica da Tarsila, maravilhosa obra, tão importante quanto o “Abaporu”, e agora no acervo do MAC.
Não encontrei esse quadro em sua casa nesta ocasião. Perguntei por ele à minha tia e ela respondeu:

— Estou meio magoada com a Tarsila. Ela havia me dado esse quadro como presente de casamento. O Vicente não gostava do quadro. Eu também não. Ele implicou com o beiço deslocado e o seio por cima do braço, para dizer o mínimo. Tarsila telefonou pedindo o quadro emprestado para uma sua retrospectiva, entreguei-o sem recibo a um portador que ela mandou, e o quadro nunca mais voltou. Mas na verdade, não faço questão, nunca gostei do quadro mesmo...

Quase caí para trás. O único quadro realmente bom e valioso e que ainda por cima combinava com a arquitetura de sua casa (ela nem percebia isso), ela o perdera e ainda estava aliviada!
Tarsila sabia o que fazia. Ela teve a chance de consertar o destino, pelo menos desse quadro. Na sua juventude, elegante e rica, presenteara seus quadros freqüentemente a quem não os compreendia ou dava valor. Então ela resgatara a Negra, que voltara ao grande público, vendido ou doado a um importante museu. Não há injustiça no mundo..."

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