"Quando eu estava nos 17, me sentia solitário e isolado em meio à mediocridade e estupidez que reinava naquela horrível escola chamada Mackenzie, mormente no ginásio, celeiro de pequenos cafajestes imbecilizados. Eu desenhava o tempo todo nos cadernos, como um refúgio onde eu podia espairecer do tédio e das tensões embora nunca tivesse sido alvo de bullying, já comum naquela época em que nem havia tal palavra e conceito. Um dia durante o recreio, desenhando no caderno, sentado numa cadeira de braço num canto remoto do pátio, ouvi uma bela voz macia, vinda de trás, máscula, de maravilhosa dicção e inflexão, que me disse: "Belíssimo desenho! Rapaz, você é um artista!". Surpreso, voltei-me e dei de cara com um jovem bem mais velho que eu, belo, muito branco, de cabelo negro e liso e de olhos castanhos agudos como de uma águia, que continuou: "Você conhece Rimbaud?". Fomos andando nos afastando do pátio, e logo em torno ao campo de futebol enquanto ele me contava, de maneira mágica, com incrível precisão e beleza nas palavras, toda a vida do poeta menino prodígio, aventureiro, que revolucionou a Poesia, e que eu ainda não conhecia.... O jovem mensageiro? Era o grande poeta Roberto Piva, sedutor de várias gerações durante sua vida, transgressor permanente no mundo das palavras, eterno subversor, herói e mártir de uma sociedade obtusa, mas de onde nasciam ocasionais talentos desde sempre. Quanto a mim, eu fora descoberto. Estava salvo. Logo me juntaria ao grupo dos Novíssimos liderado por Piva e outros grandes poetas como Claudio Willer, Antonio Fernando de Franceschi, Rodrigo de Haro, e Décio Bar. Mas, é preciso que eu diga, não ainda como poeta, mas como artista plástico, e absorvendo tudo o que aqueles jovens poetas de extraordinária cultura literária (pareciam ter lido absolutamente tudo) podiam me transmitir. Estávamos em 1960, mas eu só iria começar a escrever pra valer no século seguinte, em 2001, quando então estava apto a criar a poetisa Alma Welt, orgulho maior de minha vida..." (das Memórias de Guilherme de Faria)
quarta-feira, 6 de janeiro de 2016
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Um comentário:
Caríssimo Amigo Guilherme,
Seus relatos em cada comentário de seu blog no google, uma vez que afortunadamente não uso o facebook desde abril de 2016,ocorreu uma ideia que você poderia iniciar uma biografia de Guilherme de Faria para que nós seus admiradores possamos ter uma ideia mais completa do Grande Intelectual das Artes no brasil!
Pense nesta possibilidade!
Forte abraço,muita saúde e 2016 de muita arte!
Taglar Dudus
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