(das Memórias de Guilherme de Faria)
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No final do ano de 1969 fui à Suíça para encontrar-me com uma namorada, linda garota de olhos cor de mel, filha de pai suíço (e mãe carioca), com quem eu tinha praticamente vivido em São Paulo por um ano, e que tendo seu pai se empenhado em afastá-la de mim, um artista pé-rapado paulistano, antecipara a ida dela (que falava alemão) à cidade natal dele, Basel, com um emprego que com seus contatos garantiu para ela num grande escritório de arquitetura. Entretanto combináramos, ela e eu, nos encontrarmos lá para vivermos juntos viajando pela Europa depois de cumprido por ela aquele estágio obrigatório nas condições que seu pai impusera. Demorei uns três meses para liquidar minhas parcas posses, minha parte num pequeno apartamento que eu tinha (em sociedade com minha segunda ex-mulher) além de meus móveis e meus quadros para poder ter dinheiro para a passagem e pelo menos para o primeiro ano com ela naquela cidade antes de sairmos pelo mundo, como era o seu sonho. Entretanto, como eu bebia demais, aquilo tudo era demais para mim, acima das minhas forças, principalmente porque eu já me encontrava no estágio alcoólico de uma certa depressão crônica, permanente. Nos três meses que me separaram da minha namorada "suiça", eu, carente, sem saber viver sozinho me envolvera com outra moça, de vinte anos, filha de pai armênio, que viria a ser a minha quarta mulher, a futura mãe de três de meus filhos. Foi esta que me levou no seu fusca, chorando, numa corrida patética ao aeroporto, para me entregar altruisticamente à minha namorada já "anterior" sem eu reconhecer. Resultado: eu tomaria aquele avião completamente dividido, me sentindo miseravelmente deprimido e já pensando em voltar. Lembro-me que antes do embarque as pessoas me olhavam muito pelo meu aspecto: cabelos e barba compridos, com uma espécie de sobretudo preto de lã que parecia uma casaca do século anterior, e que me dava, imagino, a aparência sombria de um jovem russo saído de um livro de Dostoiévsky, uma espécie de Raskolnicov do Crime e Castigo. Estávamos em plena ditadura militar, e com sequestros que haviam de aviões por "terroristas", as revistas eram severas. Sobre minhas roupas na mala havia minha caixa de tintas e pincéis com uma pequena faca sem ponta que eu usava às vezes como espátula, e que foi confiscada na revista, chamando mais a atenção para a minha constrangida pessoa. Dentro do avião, um português de meia idade, muito desenvolto, sentado ao meu lado puxou conversa. Perguntou: "Por que vais à Basiléia? Não tem nada lá, nem montanhas, e os suíços são uns "pizzas frias!" Aquilo me deixou mais deprimido ainda...
Depois do longo voo, torturante naquelas circunstâncias, sobrevoamos uma Paris noturna, que eu não haveria de conhecer, pois pousamos em Orly, onde sem sair do aeroporto fizemos baldeação e chegamos a Basel de noite, sem dar para perceber nada do aspecto da cidade. Tomei um táxi e pedi, em inglês, a um motorista mudo e insondável, para me levar a um hotel bem modesto e barato, onde me registrei sempre me sentindo observado com desconfiança, para passar a noite, esperando o amanhecer para telefonar para o escritório de Arquitetura Burkhardt para chamar minha namorada para ela me buscar. Bem cedinho telefonei do hotel e esperei-a no refeitório tomando o café da manhã. Nem dez minutos se passaram e ela entrou no pequeno saguão, andando em minha direção. Não era mais ela! Em três meses havia se passado uma vida sem eu perceber... ela ainda era linda, mas não a reconheci mais dentro de mim. Estava tudo perdido, eu me sentia trincado, numa situação falsa, já não reconhecia meus sentimentos, ela não merecia isto, era eu o culpado, eu só queria sumir, voltar ao meu ateliê, colar os cacos, me retomar...
Ela me levou até o pequeno prédio de três andares, de apartamentos minúsculos onde ela alugava uma espécie de kitchnette, e em que o zelador ou proprietário, mais um suíço calado e sinistro, também me olhava com olhar insondável, e em que, eu, já ligeiramente paranoico, via desconfiança e desprezo. Minha namorada me deixaria ali sozinho, saindo cedo todos os dias para ir ao trabalho, enquanto eu tentava desenhar em papéis sobre uma pequena mesa, ou tomava banho num banheira com uma ducha manual absurda com feitio de telefone, ou então saía para conhecer a cidade, demasiado limpa, às raias da assepsia, muito triste sob um céu baixo de chumbo sob o qual colegiais adolescentes, meninos e meninas louros, de bicicleta, pedalavam tranquilos, certamente dirigindo-se à escola, sem contudo alegrar as ruas em que predominava o crocitar lúgubre dos corvos que dominavam os ares e as árvores desgalhadas naquele fim de outono... crow, crow, crow...
Entretanto eu visitava todos os dias, por muitas horas, o famoso Kunstmuseum de Basel, onde ficava horas observando grandes pinturas, e em particular a obras mestras de Hans Holbein, o grande pintor renascentista natural daquela cidade. Ali me detinha numa sala especial onde dominava a célebre pintura deste mestre, que representa o cadáver de Cristo no túmulo, uma pintura assombrosa pelo realismo terrificante, em que você pode ver as feridas abertas, já coaguladas, perceber o começo da decomposição... e chegar a sentir-lhe o odor. Foi essa pintura que Dostoiévsky, no século XIX, visitando o Museu, pronunciou e depois botou na boca do seu príncipe Michkin, de O Idiota, como sendo palavras de um conhecido seu, a seguinte exclamação: "Eis aqui porquê perder a fé!"....
Entretanto eu visitava todos os dias, por muitas horas, o famoso Kunstmuseum de Basel, onde ficava horas observando grandes pinturas, e em particular a obras mestras de Hans Holbein, o grande pintor renascentista natural daquela cidade. Ali me detinha numa sala especial onde dominava a célebre pintura deste mestre, que representa o cadáver de Cristo no túmulo, uma pintura assombrosa pelo realismo terrificante, em que você pode ver as feridas abertas, já coaguladas, perceber o começo da decomposição... e chegar a sentir-lhe o odor. Foi essa pintura que Dostoiévsky, no século XIX, visitando o Museu, pronunciou e depois botou na boca do seu príncipe Michkin, de O Idiota, como sendo palavras de um conhecido seu, a seguinte exclamação: "Eis aqui porquê perder a fé!"....
Naqueles dias, naquela cidade triste, naquele quarto estranho, ouvindo o crocitar dos corvos da minha depressão, eu só pensava em voltar ao Brasil. Eu saía de noite com minha namorada e íamos a cafés ou bistrôs, onde bebíamos vinho. Sem eu perceber, o álcool deteriorava mais ainda meu estado de espírito. Para piorar, chegavam quase diariamente de São Paulo cartas para mim, da nova rival da minha namorada, aumentando a minha divisão e meu mal estar. Minha namorada interceptou uma dessas cartas, lutamos por ela, e desisti. Era uma carta romanticamente estratégica, calculadamente sentimental e manipuladora, e ela, furiosa, leu-a em voz alta, ironizando, ridicularizando-a. Minha situação psicológica ficou insuportável pelo conflito interno e também pelo sentimento de culpa. Uma tarde fui ao banco retirar dinheiro e um funcionário, jovem suíço-brasileiro, talvez gerente, observando-me tão nitidamente deprimido parecendo um farrapo humano, se aproximou de mim e disse baixinho: "Rapaz, posso lhe apresentar um conterrâneo seu que reúne compatriotas em sua casa, para reuniões de apoio"... e deu-me um cartão com um nome e telefone. Percebi que ele deduziu (erroneamente) ser eu um militante de esquerda, certamente torturado, exilado. Agradeci a esta boa alma, me sentindo ainda mais confuso, envergonhado... Então decidi voltar a São Paulo. Não havia se passado mais que um mês e meio. Ela, a duras penas aceitou minha partida dizendo: "Então vá, "coizinho" (ela me chamava assim), pode ir embora, mas não volte para aquela ditadura, para aquele país horrível! Vá para Paris, que está a apenas duas horas de trem, daqui. Se não for, como artista vai se arrepender para o resto da vida!"
Mas eu não tinha condições psicológicas... Precisava retornar, ou morreria, eu senti...
Mas eu não tinha condições psicológicas... Precisava retornar, ou morreria, eu senti...
Então, fomos de trem para Zurique onde eu pegaria um avião para o Brasil. Lembro-me bem da viagem de trem, onde eu já me senti bastante aliviado por estar voltando. Entretanto, era ela que estava me levando ao encontro da outra, para me entregar para a outra, numa estranha simetria inversa, que me parecia bastante sugestiva. De quê? Da generosidade e altruísmo da mulheres quando amam de verdade. Estarei enganado? Eu, fragilizado, na qualidade de "homem-objeto" em que me encontrava, dependia dessa generosidade, eu estava em frangalhos...
Em Zurique, comprada a passagem, eu teria que esperar muitas horas para o voo, então fomos passear, conhecer um pouco a cidade, que esta sim me pareceu belíssima, imponente, com um magnífico lago onde nadavam cisnes brancos, vistos da ponte maravilhosa onde ondulavam em mastros flâmulas de aspecto medieval. Percebia-se a riqueza daquela cidade em tudo, nas vitrines das lojas em que, quando se via um quadro exposto, por exemplo um Modigliani, era um original mesmo, em magnífica moldura, e não uma cópia ou um poster. Outras apresentavam na decoração espadas, montantes, alabardas, elmos e armaduras medievais verdadeiras, nunca cópias. Eu me sentia pequeno, um jeca, um terceiro-mundista subdesenvolvido diante daquilo tudo. Fomos fazer hora num grande restaurante onde em compridas mesas coletivas, os convivas cantavam uma espécie de brinde, em coro, alegremente erguendo grandes canecos de cerveja, em que depois de uma frase curta levemente modificada a cada vez, o coro repetia algo como Saf Haus, Saf Haus, Saf Haus (Quem nasceu em Janeiro... chupa tudo, chupa tudo, chupa tudo... Quem nasceu em Dezembro...) Um dia eu iria cantar isso para meus filhos se divertirem... E foi ela, minha abandonada namorada, que a meu pedido traduziu o significado daquela canção, que me parecia uma amostra da distante alegria do mundo, da vida dos normais, dos leves e despreocupados, e talvez muito mais íntegros habitantes do mundo real...
À tardinha fomos a um bistrô para beber um bom vinho de despedida. Estávamos sentados a um mesa, conversando, quando entrou um casal jovem com um bebê num cesto que pousaram no chão ao lado da mesa deles. Olhei-os, perplexo, cheio de admiração. Eram todos os três os mais belos espécimes de seres humano que jamais vi. Verdadeiros deuses vivos. O rapaz era muito alto, loiro, de cabelos encaracolados, barba também loira e olhos azuis. Um verdadeiro viking redivivo. A moça, uma beldade também loira de olhos verdes, e o bebê, de uma beleza divina, dormindo tranquilo em sua confortável cestinha, branquinho, loiro e corado como uma maçã perfeita.
Entretanto o casal olhava muito para nós, intrigados, enquanto falávamos sem parar, não me lembro sobre o quê. Então o rapaz lá da mesa dele dirigiu a palavra em alemão para nós, algo que me pareceu uma pergunta. Minha namorada respondeu gentilmente em alemão e o rapaz sorrindo fez um gesto muito harmônîco e falou mais alguma coisa enquanto sua parceira também sorria para nós. Perguntei à minha namorada o que ele tinha perguntado, já que eu não falo alemão. Ela disse: "Eles queriam saber que língua nós estamos falando e eu respondi "português do Brasil." Então ele disse: "É a mais bela língua que jamais ouvi. Parece uma música ... " E nós dois então agradecemos ao belo casal com um aceno e um sorriso, gratos.
À tardinha fomos a um bistrô para beber um bom vinho de despedida. Estávamos sentados a um mesa, conversando, quando entrou um casal jovem com um bebê num cesto que pousaram no chão ao lado da mesa deles. Olhei-os, perplexo, cheio de admiração. Eram todos os três os mais belos espécimes de seres humano que jamais vi. Verdadeiros deuses vivos. O rapaz era muito alto, loiro, de cabelos encaracolados, barba também loira e olhos azuis. Um verdadeiro viking redivivo. A moça, uma beldade também loira de olhos verdes, e o bebê, de uma beleza divina, dormindo tranquilo em sua confortável cestinha, branquinho, loiro e corado como uma maçã perfeita.
Entretanto o casal olhava muito para nós, intrigados, enquanto falávamos sem parar, não me lembro sobre o quê. Então o rapaz lá da mesa dele dirigiu a palavra em alemão para nós, algo que me pareceu uma pergunta. Minha namorada respondeu gentilmente em alemão e o rapaz sorrindo fez um gesto muito harmônîco e falou mais alguma coisa enquanto sua parceira também sorria para nós. Perguntei à minha namorada o que ele tinha perguntado, já que eu não falo alemão. Ela disse: "Eles queriam saber que língua nós estamos falando e eu respondi "português do Brasil." Então ele disse: "É a mais bela língua que jamais ouvi. Parece uma música ... " E nós dois então agradecemos ao belo casal com um aceno e um sorriso, gratos.
Aquilo afinal me fez bem, melhorando um pouquinho a minha auto-estima, já que sempre fui consciente de falar um português perfeito com dicção bem articulada a minha vida toda, fruto talvez das minhas leituras dos clássicos. Afinal eu não era tão... assim, um pé rapado, pelo menos não na minha terra...
Afinal chegou a hora da partida. Ela se despediu de mim no saguão do aeroporto diante da sala de embarque, abraçando-me forte... minha linda namorada "suíça" que eu abandonava para sempre, grato por ela me liberar com relativa facilidade, porque eu não tinha mais condições de nada. Eu iria iniciar uma nova vida com a pequena "armênia", e ter filhos com ela.
Muitos anos depois, morando em Olinda com minha esposa grávida de meu terceiro filho com ela, eu estava em São Paulo no bem sucedido vernissage de uma exposição individual minha, de desenhos, na Galeria Cosme Velho, e para minha surpresa minha ex namorada "suiça", linda, loira, sedutora, apareceu com um boá de plumas negras e nos sentamos à mesa de um café nas proximidades da Galeria para conferirmos nossas vivências depois da nossa separação. Anos tinham se passado e ela me confidenciou que após minha partida ela teve uma crise e quebrou tudo no quarto, tiveram que intervir. Agora, ela, deslumbrante, tentava me seduzir já a partir daquele novo encontro e cheguei a ficar terrivelmente tentado... Entretanto a lembrança da minha pobre armeniazinha que já tinha perdido o nosso primeiro filho, e naquele momento novamente grávida lá em Olinda, me fez resistir (acreditem se quiserem), para sua nova decepção. Mas iriam se passar ainda mais quinze anos antes de me render a mim mesmo, e me tratar...
Afinal chegou a hora da partida. Ela se despediu de mim no saguão do aeroporto diante da sala de embarque, abraçando-me forte... minha linda namorada "suíça" que eu abandonava para sempre, grato por ela me liberar com relativa facilidade, porque eu não tinha mais condições de nada. Eu iria iniciar uma nova vida com a pequena "armênia", e ter filhos com ela.
Muitos anos depois, morando em Olinda com minha esposa grávida de meu terceiro filho com ela, eu estava em São Paulo no bem sucedido vernissage de uma exposição individual minha, de desenhos, na Galeria Cosme Velho, e para minha surpresa minha ex namorada "suiça", linda, loira, sedutora, apareceu com um boá de plumas negras e nos sentamos à mesa de um café nas proximidades da Galeria para conferirmos nossas vivências depois da nossa separação. Anos tinham se passado e ela me confidenciou que após minha partida ela teve uma crise e quebrou tudo no quarto, tiveram que intervir. Agora, ela, deslumbrante, tentava me seduzir já a partir daquele novo encontro e cheguei a ficar terrivelmente tentado... Entretanto a lembrança da minha pobre armeniazinha que já tinha perdido o nosso primeiro filho, e naquele momento novamente grávida lá em Olinda, me fez resistir (acreditem se quiserem), para sua nova decepção. Mas iriam se passar ainda mais quinze anos antes de me render a mim mesmo, e me tratar...
FIM
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