quarta-feira, 15 de março de 2017

Retrato de um artista quando jovem

Estive pensando em algumas figuras de minha juventude, que se esvaeceram, se distanciaram e desapareceram numa espécie de neblina da memória, mas que voltam às vezes como espectros, aqueles que morreram por seus excessos, tão próprios da nossa geração. Hoje sonhei pela primeira vez com o Marcio Mattar, breve amizade dos meus vinte anos, um jovem artista do Rio de Janeiro, natural da Zona Norte (Rio Comprido) que apareceu como um cometa em São Paulo, no começo dos anos 60, excepcionalmente belo e encantador, conquistando facilmente amigos no ambiente artístico da nossa "Paulicéia Desvairada ". Lembro de que uma vez, eu morando num ateliê- porão ( meu "Bateau-Lavoir" paulistano da rua Mato Grosso), praticamente na miséria, o levei um dia à casa de minha mãe para filarmos uma bóia, e ela, encantada com ele, praticamente o queria adotar. Entretanto, Marcio bebia com uma sede avassaladora. Dois anos mais tarde, eu já casado com Jomara, fomos visitá-lo, próspero, na sua casa enorme de Santa Tereza, onde ele fazia sucesso com móveis belíssimos, rústicos, de madeira pesada que ele construía com as próprias mãos, queimando a peroba com maçarico e depois esfregando com escovas de aço, num trabalho sujo e pesadíssimo, que ele, atlético e às custas da energia adicional do álcool, conseguia realizar entre ressacas homéricas e dolorosíssimas. Ficamos hospedados, Jomara e eu, na casa dele e vimos esse trabalho impossível, feito praticamente sozinho, que o sustentava no mundo dos seus ricos clientes, e talvez falsos amigos emergentes da Zona Sul do Rio, numa festa contínua de álcool e drogas, que ele entremeava com seu labor titânico. Mas certamente foi o álcool que o exauriu, e ele morreu por volta dos trinta anos, de cirrose e exaustão. Que posso dizer disso? Marcio viveu intensamente e se queimou como uma tocha, numa imensa voracidade de vida, arte, trabalho, prazeres e desespero. Quanta angústia devia sentir, sem nunca se queixar!... Era um instintivo, um primitivo de nova era, e por isso se consumiu mais rapidamente, enquanto nós, negociávamos com o álcool para durar mais, certamente por uma certa malícia intelectual, senão covardia mesmo... 
(das Memórias de Guilherme de Faria)

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