No último domingo, terminado o concerto das Bachianas de Villa-Lobos, no Municipal, caía uma intensa chuva que prendeu toda a platéia, de pé no saguão do teatro, por pelo menos meia hora esperando a chuva passar. Quando amainou a enfrentamos, minha irmã e eu até aquela galeria em frente, onde era a antiga Light (sou também antigo), que já estava fechando, mas que nos informaram que havia ali dentro uma padaria que ainda estava servindo. Havia uma única mesa desocupada e cheia dos restos de refeição anterior. Para garanti-la sentei-me meio constrangido enquanto minha irmã ficava numa pequena mas demorada fila para fazer o pedido e pagar. Como ela demorava, virei-me para uma rapaz que estava atrás de mim, de pé meio curvado sobre a a mesa de uns rapazes do lado, e julgando-o um garçom pela sua camisa branca, estranha, sem gola, de tipo russo, pedi-lhe delicadamente que aproveitasse para tirar a minha mesa. O rapaz disse: "Senhor, não trabalho aqui, também sou cliente, eu sou da orquestra. Eu ri de mim mesmo e desculpei-me muito, pelo engano. Depois de um minuto, voltei-me para ele e perguntei: "Você é de que orquestra?" E ele: "do Municipal... " Então eu disse: "Ah! Parabéns! Acabamos de sair de lá! Que maravilha de orquestra! Você está de parabéns! Qual é o seu Instrumento? "Viola", ele respondeu. E eu (para mostrar conhecimento): " Ah aquele violino grande, mais grave, entre o violino e o cello...Gosto muito! Parabéns mesmo! " E a conversa acabou por aí...
Entretanto, como minha irmã demorava, mais uns cinco minutos e um dos rapazes da mesa ao lado, levantou-se e disse: "Não sou garçom, senhor, mas vou retirar a sua mesa." E o fez rapidamente, enquanto eu agradecia, surpreso com tanta gentileza, que expressei e agradeci. Depois de um momento dei-me conta de que naquela mesa eram todos músicos da Orquestra Sinfônica, que eu não havia atinado por serem tão jovens. Aquele rapaz, tão prestativo... quereria ele também um elogio? Quando pensei isso, eles já tinham levantado e saído.
Entretanto ficou-me a impressão de modéstia e prestatividade que deve ser a tônica de todo músico de orquestra, humildes na servidão e grandeza de seu ofício virtuose, no anonimato tão conformado mas tão pleno de recompensa íntima pela própria Música... e pelo aplauso sincero do público. Honra aos músicos anônimos, servidores do Mundo...
( das Memórias de Guilherme de Faria)
terça-feira, 7 de março de 2017
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