terça-feira, 29 de janeiro de 2019

(Mais um trecho das minhas "Memórias")
Uma coisa é certa: cabe a cada um descobrir o sentido da vida, quer dizer... de sua própria vida. Para muitos isso é uma procura de uma vida inteira, para poucos um estalo quase ao nascer. Nesse sentido fui um privilegiado: descobri ainda criança que queria ser um artista, desenhista e pintor também escritor, ao ler, da biblioteca caseira de meus pais cultos, precocemente, a biografia romanceada dos grandes artistas da Renascença Italiana. Eu me identifiquei imediatamente com eles, me parecia conhecê-los profundamente em mim mesmo... Absurdo? Assim era. A primeira biografia que me apaixonou foi a Vida de Michelangelo, de Romain Rolland, que começava assim: "Era um burguês florentino...". Em seguida, O Romance de Leonardo Da Vinci, de Dimitri Merejkowsky, histórias de vidas com as quais misteriosamente tive uma identificação profunda, me perdoem a talvez ridícula pretensão do meu inconsciente, se posso dizer assim... Depois, claro, fui ler a vida dos "modernos" , isto é, dos impressionistas e pós-impressionistas da Ècole de Paris.
Portanto cresci com essa obsessão, e nunca me ocorreu outra "profissão" e muito menos procurar um emprego. Resultado, no inicio da minha carreira, tendo saído de casa brigado com minha mãe, que queria me proteger da vida e do mundo (ela me ameaçava com o exemplo trágico de Van Gogh, que ela generalizava), fui morar num porão infecto num cortiço atrás do Cemitério da Consolação, meu primeiro ateliê onde vivi uma espécie de "vie de bohème" num Bateau Lavoir ou num Quartier Latin tupiniquim. Resumo: os meus primeiros quinze anos de carreira artística foram divididos assim: cinco anos de miséria negra e dez anos de pobreza extrema, regados a álcool, sexo, angústias e música clássica (!!) Depois, gradativamente uma subida para uma relativa prosperidade "bourgeoise" que durou outros quinze anos apenas, para depois mergulhar lentamente numa digna e prestigiosa pobreza, cercado de centenas de meus quadros, na minha gaiola dourada da rua Oscar Freire onde envelheço neste quase quitinete "que é a parte que me coube neste latifúndio"...
(das Memórias de Guilherme de Faria)

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