terça-feira, 29 de janeiro de 2019

TROIA e o senso de realidade. ou O moço de Rio Pomba.

Há uns anos atrás, eu estando com a Eliana em temporada numa pousada de uma pequena cidade de Minas, durante os longos e monótonos serões assistia no DVD-player da sala comunitária da pousada, filmes épicos que eu alugava de uma locadora local, os quais aprecio muito, como O Senhor dos Anéis, Troia, e 300, por exemplo. Um moço recém-chegado de Rio Pomba, uma outra cidade mineira, aproximou-se de mim, e com visível ironia me disse: "Como o senhor gosta de guerra, não?!". Fiquei ligeiramente desconcertado com a visível censura e até desprezo contidos na observação do rapaz. Entretanto respondi: "São filmes épicos, epopeias... não são simples filmes de guerra." 
Minha resposta calou o rapaz mas não desmontou o seu equivocado desprezo, eu percebi pela sua expressão fisionômica. Dei-me conta então da verdade sobre o tal analfabetismo funcional, ou pelo menos da incultura dos jovens-recém saídos das Universidades. O rapaz era um jovem promotor e não poderia fazer uma tal observação enquanto eu assistia uma bela versão da guerra de Troia, embora hollywoodiana. No meu entender o mínimo que um advogado ou promotor deveria ler, continua sendo a Ilíada de Homero. Talvez eu deva reconhecer que meu estilo de vida, voltado inteiramente para a minha arte e memórias literárias, pode ter me afastado da realidade atual. Mas não! Por que então continuariam fazendo blockbusters com tão belas estórias épicas? A ignorância por mais disseminada que esteja, é sempre uma questão individual.
Mas... quanto ao senso de realidade, devo dizer que precisei alguns anos para me dar conta de que embora não houvesse mais ninguém na sala e os outros hóspedes estivessem todos dormindo, o rapaz deveria estar querendo ver o Jornal Nacional e eu estava egoisticamente ocupando o televisor...
(Das memórias de Guilherme de Faria)

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