terça-feira, 29 de janeiro de 2019

(Mais um trecho das minhas Memórias...)
Quando criança eu assistia nas matinês seriados americanos de Flash Gordon, ou westerns em preto e branco; mais tarde um pouco, musicais de fantásticos sapateados de Ginger Rogers e Fred Astaire, e Gene Kelly. Eu via também, claro, nos domingos, filmes de Mazzaropi e as comédias da Atlântida, de Oscarito, Grande Otelo, Eliana e Cyl Farney, que devo confessar que me divertiam igualmente. Entretanto a inevitável comparação da sociedade americana vislumbrada naqueles filmes, com a nossa, me produzia uma espécie de secreta vergonha e humilhação pelo nosso evidente provincianismo e "jequice". Na verdade essas palavras não me vinham ao subconsciente, muito menos a palavra subdesenvolvimento. Era tão somente uma vergonha difusa, um vago desgosto estranhamente misturado com a ternura e nostalgia de algo mais primitivo, ingênuo e longínquo que me tocava e comovia quando eu ouvia coisas como a canção "Casinha Pequenina" (Tu não te lembras... ) cantada pela nossa soprano Bidu Sayão, ou a Cantilena da bachiana n°5 de Villa-Lobos.
Entretanto predominou o desgosto, já que em casa eu me entupia dos clássicos da literatura européia da biblioteca dos meus pais. Minha infância, pois, sendo um ratinho de biblioteca, foi atípica e me tornou um solitário, pois para o próprio desenho e pintura de minha vocação inata eu só tinha modelos europeus, claro. Sobretudo os divinos renascentistas italianos, e como ilustradores, os oitocentistas Gustave Doré e Wilhelm Busch.
Resumindo: sempre me senti deslocado, um exilado em minha própria terra, uma mente européia num coração brasileiro, portanto num peculiar desconforto que só cessa quando estou diante do cavalete, terra de ninguém...
(das Memórias de Guilherme de Faria)

Nenhum comentário: