terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Uma das maiores e mais persistentes mágoas da poetisa Alma Welt foi não ter tido filhos. Pior: ela teve um mas perdeu com poucos dias. Ao entrevistá-la toquei no assunto e o semblante daquela mulher linda se nublou, ela oscilou como numa vertigem e baixando a cabeça soluçou dolorosamente. Eu me apaixonei imediatamente por ela, eu a abracei e a apertei contra o meu peito e sonhei por um momento em dar-lhe um filho e devolver-lhe a felicidade... Mas ela então se desvaneceu e... eu abraçava o vazio. Ela vinha de dentro de mim, era meu maior heterônimo, eu podia dar-lhe vida em letras e palavras, até mesmo em pinturas, desenhos e gravuras, mas não podia corporificá-la em carne e osso como um Pigmalião à sua Galatea...
(das Memórias de Guilherme de Faria)


Comentários
  • nline agora

reencarnacionistas pretendem saber explicar. A maioria de nós tem de aprender a viver a duras penas, por tentativa e erro. Alguns precoces brilham para sempre, como Mozart, Rafael, Rimbaud... mas morrem cedo. Quanto a mim, fui precoce no desenho e até na poesia, mas perto do abismo redirecionei meu "karma" (por assim dizer) recusando a luminosa maldição dos trágicos e escolhendo uma vida mais longa e fecunda. Alguém poderia simplesmente me acusar de covardia... sim, aqueles cujos "heróis morreram de overdose". Entretanto vivi os melhores anos da minha vida quando afinal me rendi à sobriedade. Os mais produtivos, sem dúvida...(das Memórias de Guilherme de Faria)

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