Eu morreria se não pudesse fazer arte e não consigo me ver em nenhuma outra profissão embora mal seja capaz de vender pessoalmente as minhas telas e desenhos.Sou ruim de vendas porque tenho um secreto desprezo pelo comércio, fruto talvez de um preconceito arraigado, de formação na infância, filho que sou de uma professora católica e pai médico ateu, muito cultos e também avessos ao comércio, incapazes de vender algo material. Em criança, e já no começo da juventude eu tinha a tendência a presentear meus desenhos a quem muito os elogiasse. Em 1963, participando da I Exposição do Jovem Desenho Nacional na FAAP, o Flávio de Carvalho me abordou (ele pareceu ter ficado impressionado com meu trabalho) e disse, com aquela voz grave e embolada: "Olha, rapaz, um conselho: nunca dê seu trabalho de presente para ninguém. Nunca!" Eu o olhei como se olha um velho avarento, mas respeitosamente agradeci o conselho. Não demoraria a perceber que arte é a última coisa que as pessoas pensam em pagar. Afinal, gostar é de graça, e mercado de arte nada tem a ver com isso. A pessoa que adquire um quadro tem muito desenvolvido o sentimento de posse. Eu, por exemplo, jamais pensaria em ter um Van Gogh, e se o tivesse, doaria imediatamente a um museu, porque naturalmente eu seria muito rico e não precisaria vendê-lo. Entretanto comecei cedo a viver de arte por absoluta necessidade mas graças a ter descoberto em mim um certo cinismo anestésico, como imagino haver nas prostitutas de bom caráter...
(das Memórias de Guilherme de Faria)
domingo, 2 de dezembro de 2018
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