Os reencontros em nossa vida nunca acontecem como imaginamos ou esperamos. Há sempre uma surpresa, uma ironia, ou uma decepção desconcertante (redundância), por vezes uma inusitada ternura. Por ora não me refiro aos meus raros reencontros com as mulheres amadas da minha juventude. Quando minha querida mãe que sempre apostou em mim como artista ficou doente na velhice e foi morar numa chácara no interior com meu irmão mais velho e sua esposa por motivo de infra-estrutura que eu não poderia dar morando num ateliê precário e superlotado de tralha, passei quase um ano sem vê-la e afinal, visitando-a encontrei-a apesar de super bem tratada, magérrima pela doença, deitada numa cama de onde não mais saía, me fitando com olhos arregalados. Sem ter certeza de que me reconhecera, disse-lhe: "Mãe, sou eu, o Guilherme". E passando a mão na minha barba branca, completei: "Estou velho, não?" E ela com os mesmos olhos arregalados e sem expressão respondeu seca e laconicamente: "ESTÁ!"
Sorri desconcertado, acariciei um pouco sua mão inerte, e me retirei do quarto. Nunca mais a veria viva. E aquela confirmação da impressão física que devo causar aos que me conheceram jovem, me acompanhará para sempre. Sei também que essa impressão deve durar somente até eu começar a falar, pois meu entusiasmo pela minha arte, pela beleza persistente da vida e da natureza, e pelos termos ideais da existência humana, me mantêm com o mesmo fogo da minha juventude, embora não mais boêmio e desregrado, e certamente sem aquele desespero oculto que a minha arte mal disfarçava...
Enfim... como é bom envelhecer!
Sorri desconcertado, acariciei um pouco sua mão inerte, e me retirei do quarto. Nunca mais a veria viva. E aquela confirmação da impressão física que devo causar aos que me conheceram jovem, me acompanhará para sempre. Sei também que essa impressão deve durar somente até eu começar a falar, pois meu entusiasmo pela minha arte, pela beleza persistente da vida e da natureza, e pelos termos ideais da existência humana, me mantêm com o mesmo fogo da minha juventude, embora não mais boêmio e desregrado, e certamente sem aquele desespero oculto que a minha arte mal disfarçava...
Enfim... como é bom envelhecer!
(das Memórias de Guilherme de Faria)
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