sábado, 1 de dezembro de 2018

Mais um fragmento das minhas Memórias

"Ao contrário da Alma Welt, meu heterônimo feminino, não tenho saudades da minha infância. Tive bons momentos, é verdade, como todo mundo, mas em geral me sentia numa espécie de limbo provisório, sempre numa espera ansiosa de crescer. Ser criança me parecia, em si, uma condição humilhante e até vergonhosa. Na verdade isto acontece com muitas crianças precoces, e seu sofrimento intensamente subjetivo em geral passa despercebido ou não levado a sério. Por volta dos doze anos me apaixonei profundamente por uma menina do bairro, sofrendo os tormentos interiores e clandestinos de um pequeno Werther. Só faltou o suicídio. A paixão desproporcional e prematura por aquela pequena deusa da minha devoção me marcaria para sempre. A partir da juventude, para poder viver precisaria da companhia intensa do "espelho da anima" me cercando por todos os lados, que é o que a mulher representa... Até aí nada de original, na medida em que isso ocorre com os homens em geral, daí os casamentos e até a perpetuação da espécie. Mas, no meu caso, eu precisava projetar a minha própria anima no papel e nas telas e cercar-me, além de uma companheira real, de suas infinitas imagens pelas paredes para sentir-me íntegro. Sim, sem isso me sentia desintegrar, perder minha própria individualidade e personalidade. Triste dependência, reconheço... Muitos artistas são assim, por isso se casam tantas vezes e foi o que ocorreu também comigo. Como Picasso, minha vida pode ser dividida por fases regidas pelas mulheres com quem compartilhei o teto do meu ateliê, mas sempre numa espécie de dolorosa peregrinação (me perdoem as lindas mulheres que me acompanharam por longas ou breves temporadas e em especial a paciente Eliana, maravilhosa companheira dos últimos 25 anos). Sim porque devo dizer que, na verdade, essa peregrinação anímica cessou, afinal, quando em 2001 descobri a identidade psíquica e existencial da minha musa interior, sim, de modo inusitado vinda de dentro de mim mesmo, sendo já a minha modelo tão projetada, a desconhecida ruiva insistente dos meus desenhos há décadas, e que no momento em que, financeiramente falido, nada mais tendo a perder, me sentando afinal para escrever a sério, então se insinuou como escritora e poetisa com o sugestivo primeiro conto que me enviou das profundezas de mim mesmo: "Lembrança Preciosa Para a Alma Fiel" *, alegoria indireta, oculta e sutil do próprio primeiro amor da minha infância..."
(das Memórias de Guilherme de Faria)
Nota
* "Lembrança Preciosa Para a Alma Fiel" - este é o primeiro conto enviado pela Alma e que abre o primeiro livro dela; os Contos da Alma, de Alma Welt, publicado em 2004 pela Editora Palavras & Gestos, de São Paulo. Recomendo aos meus leitores esse conto como uma chave para o entendimento de toda a literatura da Alma Welt, assim como os críticos de Dostoievski recomendam o conto "O Mujique Marei" como "chave" para o entendimento da obra daquele grande mestre. Entretanto, devo também recomendar para o enriquecimento desse entendimento, no estudo da teoria dos Arquétipos de Carl Jung tudo o que concerne à "anima," o mais importante e decisivo dos arquétipos que regem a alma do homem.

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