Quando jovem artista, em 1965, lutando para vender meus desenhos e pinturas para sobreviver, já com a minha segunda companheira, a bela Jomara, vivi a estranha experiência de
conhecer um tipo social raríssimo, um "mecenas", de verdade. Tratava-se de um médico, grande colecionador judeu, riquíssimo. Foi assim: fui procurar uma senhora, judia muito culta, mãe de um amigo meu de infância, de quarteirão, que me disseram que estava lidando com arte. Procurei-a na esperança dela me ajudar a vender alguma coisa. Ela ficou com alguns desenhos em consignação para tentar vender para a sua colônia e me aconselhou a doar alguma obra para um leilão em benefício da construção do Hospital Einstein, o que fiz embora estivesse praticamente na miséria. O importante é que dois dias depois ela me procurou dizendo: "Guilherme, mostrei seus desenhos ao Dr. José Nemirovsky, que é um grande colecionador e membro da diretoria do MASP. Ele disse que já viu desenhos seus em leilões e admirou-se de saber que você é jovem. Ele pensava que você era um artista da geração do Volpi. Ele gosta do seu trabalho e disse para você procurá-lo. Eis aqui o telefone dele".
Cheio de expectativa telefonei para o Dr. Nemirovsky que me disse: "Guilherme venha aqui na minha casa hoje, às tantas horas para conversarmos." Ele morava num luxuoso apartamento em Higienópolis, e eu ao adentrar me deslumbrei de passagem com a sua fabulosa coleção brasileira, na qual percebi logo Portinaris, Volpis, Tarsilas, Bonadeis, Anitas e Di Cavalcantis.
Ele, um homem alto e distinto, me conduziu ao seu escritório, uma grande biblioteca, e sentando à sua mesa, eu convidado a sentar-me a sua frente, olhou-me profundamente, perscrutando-me, e perguntou:
conhecer um tipo social raríssimo, um "mecenas", de verdade. Tratava-se de um médico, grande colecionador judeu, riquíssimo. Foi assim: fui procurar uma senhora, judia muito culta, mãe de um amigo meu de infância, de quarteirão, que me disseram que estava lidando com arte. Procurei-a na esperança dela me ajudar a vender alguma coisa. Ela ficou com alguns desenhos em consignação para tentar vender para a sua colônia e me aconselhou a doar alguma obra para um leilão em benefício da construção do Hospital Einstein, o que fiz embora estivesse praticamente na miséria. O importante é que dois dias depois ela me procurou dizendo: "Guilherme, mostrei seus desenhos ao Dr. José Nemirovsky, que é um grande colecionador e membro da diretoria do MASP. Ele disse que já viu desenhos seus em leilões e admirou-se de saber que você é jovem. Ele pensava que você era um artista da geração do Volpi. Ele gosta do seu trabalho e disse para você procurá-lo. Eis aqui o telefone dele".
Cheio de expectativa telefonei para o Dr. Nemirovsky que me disse: "Guilherme venha aqui na minha casa hoje, às tantas horas para conversarmos." Ele morava num luxuoso apartamento em Higienópolis, e eu ao adentrar me deslumbrei de passagem com a sua fabulosa coleção brasileira, na qual percebi logo Portinaris, Volpis, Tarsilas, Bonadeis, Anitas e Di Cavalcantis.
Ele, um homem alto e distinto, me conduziu ao seu escritório, uma grande biblioteca, e sentando à sua mesa, eu convidado a sentar-me a sua frente, olhou-me profundamente, perscrutando-me, e perguntou:
"Rapaz, o que você quer da vida?"
Sem surpresa pela sua pergunta, como se já a esperasse, respondi quase como se ensaiado:
-"Doutor.... eu quero criar uma grande obra, pintar grandes quadros.. é só o que me interessa na vida..."
Ele me olhou mais profundamente ainda, e não enxergando falsidade no que eu dissera, continuou:
"Quero visitar seu ateliê. Podemos ir agora mesmo? Onde você mora?"
- Claro, doutor, moro no centro, na praça Julio Mesquita, na esquina da rua Aurora.
Ele avisou sua mulher Paulina, uma bela mulher com porte de rainha hebreia, que me cumprimentou com um sorriso acolhedor.
Saímos, e o pai do doutor, um senhor idoso que estava ali talvez de visita, saiu junto e entrou conosco no elevador. Enquanto descíamos para a garagem, o velho olhando-me rapidamente de cima a baixo virou-se para o seu filho e perguntou apenas: "Goi"?
O doutor sorriu e olhando-me rapidamente disse: " Sim" . Quanto a mim, fingi não entender que o velho perguntava se eu não era judeu, se era "gentio", isto é, "gentalha".
Pegamos o carro do doutor na garagem, e ele dirigindo tocamos para o meu apartamento-ateliê.
Era na "boca do lixo", no Edifício Olido, em cima do cinema de mesmo nome, de repertório pornô, condigno lugar para um artista em começo de carreira, na zona barra pesada da prostituição do centro da Paulicéia, ao lado de um famoso treme-treme...
Sem surpresa pela sua pergunta, como se já a esperasse, respondi quase como se ensaiado:
-"Doutor.... eu quero criar uma grande obra, pintar grandes quadros.. é só o que me interessa na vida..."
Ele me olhou mais profundamente ainda, e não enxergando falsidade no que eu dissera, continuou:
"Quero visitar seu ateliê. Podemos ir agora mesmo? Onde você mora?"
- Claro, doutor, moro no centro, na praça Julio Mesquita, na esquina da rua Aurora.
Ele avisou sua mulher Paulina, uma bela mulher com porte de rainha hebreia, que me cumprimentou com um sorriso acolhedor.
Saímos, e o pai do doutor, um senhor idoso que estava ali talvez de visita, saiu junto e entrou conosco no elevador. Enquanto descíamos para a garagem, o velho olhando-me rapidamente de cima a baixo virou-se para o seu filho e perguntou apenas: "Goi"?
O doutor sorriu e olhando-me rapidamente disse: " Sim" . Quanto a mim, fingi não entender que o velho perguntava se eu não era judeu, se era "gentio", isto é, "gentalha".
Pegamos o carro do doutor na garagem, e ele dirigindo tocamos para o meu apartamento-ateliê.
Era na "boca do lixo", no Edifício Olido, em cima do cinema de mesmo nome, de repertório pornô, condigno lugar para um artista em começo de carreira, na zona barra pesada da prostituição do centro da Paulicéia, ao lado de um famoso treme-treme...
Chegando ao nosso destino e tendo deixado o carro num estacionamento ali perto notei que o doutor olhou admirado para a bela fachada e portaria Art-Déco de mármore negro do prédio, muito bem conservada e inesperada naquele contexto.
Entrando no nosso ap ele logo viu o belo retrato a óleo que eu fizera da Jomara e do qual já contei a história. Ele ficou muito impressionado e elogiou a pintura. Logo a Jomara veio recebê-lo e ele fez elogios à sua beleza ao vivo. Era um homem com muito savoir-faire...
Dentro de um dos quartos que era o ateliê, comecei a mostrar a ele inúmeros desenhos e pinturas, e uma delas o agradou especialmente. Refreei o impulso de dar a ele a tal pintura, o que poderia estragar tudo. Me lembro também de que eu, falastrão como sempre, não parava de falar.
De repente ele disse: "Vamos voltar ao meu apartamento. Você pode sair de novo, me acompanhar?" Eu estava cada vez mais curioso.
De volta ao suntuoso apartamento de Higienópolis, diante da sua mesa-secretária ele me disse:
-Bem, rapaz... não sei se faço bem ou se faço mal, mas diante do que vi, quero lhe perguntar: quanto você precisa por mês para não precisar vender a sua arte?
Entrando no nosso ap ele logo viu o belo retrato a óleo que eu fizera da Jomara e do qual já contei a história. Ele ficou muito impressionado e elogiou a pintura. Logo a Jomara veio recebê-lo e ele fez elogios à sua beleza ao vivo. Era um homem com muito savoir-faire...
Dentro de um dos quartos que era o ateliê, comecei a mostrar a ele inúmeros desenhos e pinturas, e uma delas o agradou especialmente. Refreei o impulso de dar a ele a tal pintura, o que poderia estragar tudo. Me lembro também de que eu, falastrão como sempre, não parava de falar.
De repente ele disse: "Vamos voltar ao meu apartamento. Você pode sair de novo, me acompanhar?" Eu estava cada vez mais curioso.
De volta ao suntuoso apartamento de Higienópolis, diante da sua mesa-secretária ele me disse:
-Bem, rapaz... não sei se faço bem ou se faço mal, mas diante do que vi, quero lhe perguntar: quanto você precisa por mês para não precisar vender a sua arte?
- O senhor se refere a uma mesada? - (eu perguntei)
.
Bem...(ele respondeu) - Uma bolsa, digamos. Por um ano.
.
Bem...(ele respondeu) - Uma bolsa, digamos. Por um ano.
Eu disse: Preciso calcular...
E ele: "Isso, pense bem, faço o seu orçamento e depois me telefone."
Fui para casa, eufórico, e disse para a minha mulher:
"Jomara, tiramos o pé da lama, sairemos da miséria!"
E contei a ela, perplexa com os olhos marejados, a proposta do doutor.
Durante um dia fiz mil contas e combinando com a Jomara estabeleci um valor altíssimo, que me permitiria realmente pintar com largueza e vivermos à grande. E voltei a telefonar ao meu inesperado mecenas que me pediu que fosse novamente ao apartamento dele. Diante daquela mesa pela terceira vez, agora eu transmitia o orçamento com firmeza. Ele sorriu e disse:
"Um pouco alto demais, não acha? Eu estava pensando em... digamos...(tanto)."
E ofereceu a metade, que ainda era uma pequena fortuna mensal.
E ofereceu a metade, que ainda era uma pequena fortuna mensal.
Aceitei imediatamente... eu calculara bem alto prevendo isso, pois desconfio ter também um pezinho em Jerusalém, como a maioria dos brasileiros de origem portuguesa...
- Bem, rapaz, me dê o nome do seu banco, agência e número da conta, e todo dia primeiro de cada mês estará essa quantia depositada.E não conte isso para ninguém. Agora nós não devemos mais nos ver. Adeus.
Eu fui para casa e a partir do dia 1° que estava muito próximo, começou para nós a festa dos novos dias de pintura, "de vinho e de rosas", que plasmaria dai por diante nossas vidas com a marca do excesso, da boemia... e nem por isso, da felicidade. Mais ou menos como quando se faz um duvidoso pacto...
Com a "bolsa" do meu mecenas entrando todo mês, nossa vida mudou. Havia fartura, podíamos fazer planos, e logo nos mudaríamos da "boca do lixo" para a rua Estados Unidos, nos Jardins, num jeitoso apartamento alugado, em cima e atrás de uma padaria. Foram dias de muita produção mas também, como eu disse, "de vinho e de rosas", isto é, de festas e bebedeiras homéricas, a ponto de um amigo nosso, gay e sofisticado, nos apelidar, a mim e Jomara, de "Fitzgerald e Zelda", tal a nossa dissipação eufórica e "artística". Ali aconteceram também coisas estranhas e perigosas, que narrarei noutra ocasião, mas após um ano, se aproximando o último dia do contrato, eu telefonei para o mecenas e convidei-o a vir ver o fruto do meu trabalho daquele ano. O Dr. Nemirovski veio e ficou primeiramente surpreso com a minha mudança de endereço às suas custas, eu percebi: ele olhava muito em torno. Entretanto, eu tinha o que mostrar, embora, sinceramente, eu pudesse ter feito mais. Mas ele disse:
- Muito bem, rapaz, você trabalhou bem.
Eu então perguntei, na bucha:
-Então Doutor, vai parar ou vai continuar ?
Ele deu uma risadinha e disse:
-Como eu lhe disse, era só por um ano. Agora outros vão precisar desta bolsa...
E acrescentou:
- Mas não se preocupe: vou lhes dar mais dois meses juntos para vocês enfrentarem o novo regime.
Eu então presenteei-o com o quadrinho a óleo que ele apreciara no nosso primeiro contato no ateliê da "boca", de um ano atrás. Ele não queria aceitar mas eu insisti, como um presente de agradecimento e estima. Ele afinal aceitou. Ele se foi e eu não o veria mais senão dali a dez anos.
Os dois meses que ele nos dera juntos era tanto dinheiro que eu dei de entrada no nosso primeiro apartamento próprio, na rua Augusta.
Dez anos depois, quando numa roda de wisky de happy- hour, na galeria Cosme Velho, na Alameda Lorena, onde eu fazia uma exposição individual de desenhos, ele subitamente disse:
- "Rapaz, aquele seu quadro está resistindo bem, na minha coleção. "
Eu fiquei imensamente satisfeito ouvindo aquilo...
- Muito bem, rapaz, você trabalhou bem.
Eu então perguntei, na bucha:
-Então Doutor, vai parar ou vai continuar ?
Ele deu uma risadinha e disse:
-Como eu lhe disse, era só por um ano. Agora outros vão precisar desta bolsa...
E acrescentou:
- Mas não se preocupe: vou lhes dar mais dois meses juntos para vocês enfrentarem o novo regime.
Eu então presenteei-o com o quadrinho a óleo que ele apreciara no nosso primeiro contato no ateliê da "boca", de um ano atrás. Ele não queria aceitar mas eu insisti, como um presente de agradecimento e estima. Ele afinal aceitou. Ele se foi e eu não o veria mais senão dali a dez anos.
Os dois meses que ele nos dera juntos era tanto dinheiro que eu dei de entrada no nosso primeiro apartamento próprio, na rua Augusta.
Dez anos depois, quando numa roda de wisky de happy- hour, na galeria Cosme Velho, na Alameda Lorena, onde eu fazia uma exposição individual de desenhos, ele subitamente disse:
- "Rapaz, aquele seu quadro está resistindo bem, na minha coleção. "
Eu fiquei imensamente satisfeito ouvindo aquilo...
Entretanto devo dizer que outros dez anos depois , fui convidado para uma festa de despedida da "vida pública" do meu mecenas, na sua nova casa da rua Guadalupe no Jardim Europa. Ele iria, como ele disse num discurso para o qual parou a festa, dedicar-se à sua própria pintura. Casa suntuosa, de concreto aparente toda em curvas e com uma piscina com um mosaico de pastilhas de gosto duvidoso no fundo, em torno da qual a nata dos artistas e dos críticos de São Paulo entornava coquetéis num desfile de pavões, enquanto ao mesmo tempo olhavam aquela mansão, se não com inveja, com perplexidade e ironia. Não pude deixar de notar, que a despeito dos maravilhosos quadros selecionados (o meu não estava ali) que a povoavam, a casa, térrea e enorme, era estranha como se contivesse um segredo suspeito, e que eu intuí ser um nível subterrâneo de igual ou maior tamanho, já que visíveis não haviam ali expostos tantos quadros quanto os de sua famosa coleção de milhares. E eu imaginei também, Deus me perdoe, um túnel paranoico de evasão, com saída numa rua de trás...
Não devo ter estado muito longe da verdade, pois em 2005, após a morte de Paulina, aquela mansão moderna, obra de um arquiteto famoso, não abrigaria a fabulosa coleção do casal, que foi para o antigo prédio do DOPS na Estação da Luz. A casa da rua Gadalupe foi totalmente demolida, inusitadamente, quando seria de se esperar que fosse o lugar natural para o museu da Fundação Paulina e José Nemirovski. Ninguém entendeu.
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(das Memórias de Guilherme de Faria)
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