segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Vendendo o meu peixe.

"Quando em 1964 eu estava pintando o meu Apocalipse, sobre duratex, no meu atelier num porão de um cortiço paupérrimo, na rua Mato Grosso (atrás do Cemitério da Consolação), uma senhora caridosa, velha, vizinha de cubículo, vinha na minha meia-porta-e-janela me oferecer um prato montanhoso de refeição operária. Eu ficava muito grato, claro, agradecia, comia, e devolvia o prato vazio. Então ela me disse um dia: "Olha, moço, esse quadro é muito grande. Porque você não serra um pedaço dele, como aquele peixe ali... Seria mais fácil você vender." Eu respondi: "É verdade, a senhora tem razão, seria mais fácil eu vender o meu peixe..." Então, um dia, ouvi ela comentando com outra: "Pobre moço! É pobre como Jó! Não deve vender nada! Também... cada coisa feia!" Eu ri muito, sozinho, no meu desolado e sujo ateliê, talvez um pouco amargamente..." (das Memórias de Guilherme de Faria)
Apocalipse - óleo s/ duratex, 1964, 170x210cm

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