sábado, 26 de setembro de 2015
"No pubic hair!"
"Quando, nos anos 60 passei a desenhar gestualmente nus femininos sem modelo (nunca os tive) a pincel e nanquim, as figuras quando frontais ostentavam os pelos púbicos, mais por uma questão de equilíbrio gráfico no espaço do papel. É verdade que as moças não se raspavam ali naquela época e eram naturalmente peludas. Mas é claro que eu poderia seguir a convenção clássica, como se via nos grandes nus dos museus... Entretanto aquele grafismo feito com uma rápida pincelada de nanquim equilibrava lindamente o conjunto e por isso era tolerada pela "freguesia". Mal tolerada, na verdade, porque os nus de costas vendiam muito mais. De qualquer modo meus desenhos nunca eram pendurados nas salas mas sempre nos quartos. Nas "alcovas" como eu gostava de imaginar... Já nos anos 90, reencontrei uma amiga, a grande e bela dramaturga Consuelo de Castro, com quem eu flertara durante uma noite daqueles tumultuados anos 60 numa festa em seu apartamento. Passamos 30 anos sem nos ver, e, maduros (ela ainda bela) nos reencontramos por acaso numa leitura dramática e ela me disse: "Guilherme, eu tenho até hoje um belo desenho seu, de nu, que você me presenteou naquele dia, mas aconteceu uma coisa estranhíssima com ele: estava emoldurado com vidro numa parede que dá para uma janela do meu ap, e um dia voltando de noite, reparei que havia um buraco de bala no púbis negro da figura, que atravessou o vidro, o papel e atingiu a parede. Suponho que um vizinho moralista lhe deu um tiro de calibre 22 ou de chumbinho. Vê, que coisa, não?" Eu fiquei pasmo, chocado, e até mesmo triste. Depois me lembrei que nos anos 70 meus desenhos exportados pela Glatt-Ymagos, faziam sucesso nos States, mas meus marchands e editores de litografias, receberam um pedido assim: "Send us more Guilherme, please, but no pubic hair! " Tudo muda... agora as moças andam raspadinhas, e os pêlos, que na arte clássica não eram aceitos, na minha ficaram atemporais, espero, como a gloriosa celulite das modelos de Rubens e Rembrandt..." (das Memórias de Guilherme de Faria)
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