segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Sangue de Boi

Quando em 1964, um casal conhecido meu, de minha abandonada classe média, me visitou no meu ateliê-porão da rua Mato Grosso, tratei de recebê-los com naturalidade, mas falando só e com entusiasmo de minhas pinturas. Entretanto, vinte anos mais tarde, eles, me encontrando em melhor situação me disseram: "Guilherme há vinte anos atrás nós visitamos você no seu ateliê, você estava começando, você se lembra?" Eu não me lembrava. Então a esposa dele disse: "E nós ficamos muito impressionados, porque vimos que você não tinha fogão nem geladeira e só uma espiriteira à álcool numa pia imunda da minúscula cozinha onde você pintava uma tela imensa, porque só ali havia um pequeno vitral por onde entrava a luz. Então perguntamos: "Você não come? Está pálido e magro! Você precisa comer! E você respondeu: Ah! Não preciso não... Olha, tenho esse garrafão de Sangue-de-boi (um vinho terrível) e quando tenho fome bebo dele no gargalo, depois faço um novo furo no cinto com o canivete, e aperto, vejam!" (e você ficou mostrando o cinto com detalhes técnicos)" Eu ri, fazendo um esforço para me lembrar daquilo, sem consegui-lo. Então a moça completou: "Para dizer a verdade, achamos que você estava meio louco e saímos dali muito tristes..." Eu me lembrei então, muito vagamente, daquilo tudo, não como um simples pesadelo, mas como um conto antigo, literário, cínico ou amargo, de minha própria invenção... (das Memórias de Guilherme de Faria)

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