sábado, 26 de setembro de 2015
Eu e o Wesley
"Uma vez em 1962, já um jovem artista profissional, pobre como Jó, eu vinha subindo a Augusta a pé do lado da cidade em direção à Paulista, para depois descer para os Jardins, e passou o Wesley Duke Lee no seu espantoso e belo MG e disse: "Oi Guilherme, sobe aí !" e me deu uma carona. Ligou imediatamente o rádio do carrinho e tava tocando uma música estranhíssima e fascinante, que gritava: "I wanna hold your hannnnd!! " E o Wesley exclamou: "Esses caras são "du caralho!" Eu nunca tinha ouvido um som assim, mais estranho que o do Elvis Presley na época do seu surgimento nos anos 50. O Wesley, quase dez anos mais velho do que eu, tinha o dom de estar na vanguarda, afinado com o seu tempo, o que nele consistia numa grande sofisticação. Quanto a mim, eu sempre fui mais antigo, amava demais o século XIX e tateava desconfiado no meu século, com um certo retardo. Por exemplo, não me deixei seduzir pela Pop Art no seu surgimento e influência avassaladora no mundo e portanto também na São Paulo dos anos 60 e 70. Eu mal tinha chegado numa espécie de expressionismo vienense do começo do século, a que os críticos de São Paulo chamaram bondosamente de "nova figuração" na qual me inseriam. E lá íamos nós, descendo a Augusta naquele carrinho esporte conversível, que parecia ser o único de sua espécie, em direção ao ateliê do Wesley, que ficava em cima da loja de discos Hi Fi, em plena Augusta, enquanto soava aquele grito em coro (a que nos juntamos) que mudaria o mundo: "I wanna hold your HAAANNNNND!!!! ..." (das Memórias de Guilherme de Faria)
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