sábado, 26 de setembro de 2015

O PINTOR IMAGINÁRIO DE MINHA MÃE


"Domingo, sempre silencioso aqui na minha Oscar Freire onde envelheço lentamente, pintando ainda e começando a ter memórias de que não me dava conta. Sim, e as mais singelas começam a ter proeminência, como sempre acontece com os velhos... Ah! Eu nem sequer sabia que apreciava tanto o humor de meu pai, já que a sua neurose comprometeu, para nós, da família, sua imagem por tanto tempo. Mas devo dizer que o humor na minha infância vinha pelos dois lados, minha mãe também o tinha, e bem peculiar. Lembro-me, por exemplo, que quando ao final do meu quarto casamento, queixei-me a ela pela incompreensão das mulheres e ela simplesmente disse: "Meu filho, homens e mulheres são tão diferentes entre si, que se não fosse a atração sexual, passariam um pelo outro com total indiferença, como o elefante pela girafa..." Isso dito por um mulher de sua geração!! Lembrei-me também, agora mesmo, que quando eu era menino ela me disse que me imaginava "já velho, sereno, com grande barba branca e um chapéu de aba larga com um cavalete armado no campo, pintando a paisagem, acompanhado por um cachorro". Não aconteceu... Não tornei-me um pintor de ar livre como aquela espécie de Monet que ela imaginava. Tornei-me um pintor de apartamento, mas com tal nostalgia de paisagens, que as pinto "imaginárias" e nelas coloco a minha Alma, vagando, ela sim, com o cachorro que nunca tive... Tornei-me, de qualquer modo, um imaginário, como o pintor dos sonhos ingênuos de minha mãe. E "demodé", nada contemporâneo, ligeiramente patético. Mas, pensando bem, neste mundo, quê artista não o é? ..." (Memórias de Guilherme de Faria)

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