sábado, 26 de setembro de 2015

O príncipe e o mendigo


"Em 1968, se não me engano, eu, jovem artista despontando mas vivendo com muita precariedade num apartamento térreo de um pequeno prédio da rua Augusta (do lado da cidade), fui contatado pelo cônsul americano Niles Bond que tendo visto meus desenhos em galerias, quis que eu ilustrasse seu livro de poemas Arcanum, que já contava com o prefácio de outro Guilherme, esse ilustre, o de Almeida. Tendo eu realizado os desenhos e o livro publicado pela Melhoramentos, recebi dele o suficiente para comprar um modesto banco giratório de desenhista na casa Michelangelo. Como não tinha dinheiro para o frete, carreguei-o sem embalagem, nas mãos e nas costas durante todo o percurso (era de metal cromado) desde a loja na Ipiranga, subindo a Augusta com seu peso crescente numa verdadeira Via Crucis . Pois não é que encontro o Niles Bond, o americano maduro de dois metros de altura, na rua Martins Fontes, que me olhando com curiosidade, disse apenas, com aquele forte sotaque: "Rapaz, que esforço, hem!!" E eu, me sentindo um pateta, respondi: "Pois é, sr. Niles, tenho trabalhado tanto que resolvi sentar um pouco..." Ele ficou mais perplexo ainda com a minha resposta e eu aproveitei para seguir em frente, enquanto ele me seguia com o olhar, eu senti, como se segue um idiota (deve ter abanado a cabeça). Pensei comigo, juro que pensei, que aquele gringo estava tendo a medida do nosso subdesenvolvimento justamente comigo, quase um mendigo, seu jovem, pobre e excêntrico ilustrador brasileiro. Sim, porque com o seu prefaciador, o outro Guilherme, ele certamente sabia que estava diante de um velho "príncipe"... (das Memórias de Guilherme de Faria)

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